Quando só uma visão mil vezes mais aguda do que pode dar a natureza seria capaz
de distinguir no oriente do céu a diferença inicial que separa a noite da madrugada, o
almuadem acordou.
Acordava sempre a esta hora, segundo o sol, tanto lhe fazendo que
fosse verão ou inverno, e não precisava de qualquer artefato de medir o tempo, nada
mais que uma mudança infinitesimal na escuridão do quarto, o pressentimento da luz
apenas adivinhada na pele da fronte, como um tênue sopro que passasse sobre as
sobrancelhas ou a primeira e quase imponderável carícia que, tanto quanto se sabe ou
acredita, é arte exclusiva e segredo até hoje não revelado daquelas formosas huris que
esperam os crentes no paraíso de Maomé.
O almuadem não abriu os olhos. Podia continuar deitado algum tempo ainda, enquanto o
sol, muito devagar, vinha se aproximando do horizonte da terra, porém tão longe de chegar
que nenhum galo da cidade levantara a cabeça para indagar dos movimentos da manhã.
É certo que ladrou um cão, sem resultado, que os mais dormiam, talvez a sonhar que em
sonhos estavam ladrando. É um sonho, pensavam, e deixavam-se dormir, rodeados por um
mundo povoado de cheiros sem dúvida estimulantes, mas nenhum tão urgente que os
fizesse despertar em sobressalto, o odor inconfundível da ameaça ou do medo, para não
dar senão estes exemplos elementares.
O almuadem levantou-se tateando no escuro,
encontrou a roupa com que acabou de cobrir-se e saiu do quarto. A mesquita estava
silenciosa, só os passos inseguros ecoavam sob os arcos, um arrastar de pés cautelosos,
como se temesse ser engolido pelo chão. A outra qualquer hora do dia ou da noite nunca
experimentava esta angústia do invisível, apenas no momento matinal, este, em que iria
subir a escada da almádena para chamar os fiéis à primeira oração.
Um escrúpulo
supersticioso representava-lhe na imaginação a sua grave culpa de continuarem os
moradores a dormir quando já o sol estivesse sobre o rio, e acordando de repelão,
aturdidos pela luz clara, perguntassem, aos gritos, onde estava o almuadem que não
chamara à hora própria, alguém mais caridoso diria, Por seu mal estará doente, e não era
verdade, desaparecera, sim, levado para o interior da terra por um génio das trevas maiores.
A escada, em caracol, era trabalhosa de subir, de mais sendo este almuadem já velho,
felizmente não precisava que lhe vendassem os olhos como às mulas das atafonas se faz
para que lhes não dê o mareio.
Quando chegou acima sentiu na cara a frescura da manhã e
a vibração da luz alvorecente, ainda cor nenhuma, que não pode ter aquela pura claridade
que antecede o dia e vem tanger na pele um arrepio sutil, como de uns invisíveis dedos,
impressão única que faz pensar se a desacreditada criação divina não será, afinal, para
humilhação de céticos e ateus, um irônico fato da história.
O almuadem correu a mão, lentamente, ao longo do parapeito circular até encontrar,
insculpida na pedra, a marca que apontava a direção de Meca, cidade santa.
Estava preparado. Uns instantes ainda para dar tempo ao sol de assomar aos balcões da
terra a sua primeira aura, e também para tornar clara a voz, porque a ciência proclamativa
de um almuadem há-de ficar patente logo ao
primeiro grito, e nele é que tem de demonstrar-se, não quando a garganta já se dulcificou
com o trabalho da fala e o consolo da comida.
Aos pés do almuadem há uma cidade, mais abaixo um rio, tudo dorme ainda, mas inquietamente.
A manhã começa a mover-se sobre as casas, a pele da água torna-se espelho do céu, e então o almuadem inspira fundo e grita, agudíssimo,
Allahu akbar, apregoando aos ares a sobre todas grandeza de Deus, e repete,
como gritará e repetirá as fórmulas seguintes, em extático canto tomando o mundo por
testemunha de que não há outro Deus senão Alá, e que Maomé é o enviado de Alá, e tendo
dito estas verdades essenciais chama à oração,
Vinde ao azalá, mas sendo o homem de
natureza preguiçoso, ainda que crente no poder Daquele que nunca dorme, o almuadem
repreende caridosamente esses outros a quem as pálpebras ainda pesam, A oração é melhor
que o sono, As-salatu jayrun min an-nawn, para os que nesta língua o entendem enfim
concluiu clamando que Alá é o único Deus, La ilaha illa llah, mas agora só uma vez, que é o
quanto basta quando se trata de verdades definitivas.
A cidade murmura as orações, o sol apontou e ilumina as açoteias,
não tarda que nos pátios apareçam os moradores. A
almádena está em plena luz. O almuadem é cego. Não o tem descrito assim o historiador no seu livro.
Apenas que o muezim subiu ao minarete e dali convocou os fiéis à oração na mesquita.
Trecho de "A história do Cerco de Lisboa".